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Rosto pintado em cores psicodélicas vibrantes em um mural
CULTURA

Drogas antes do jantar: Chloe Sells revisita o rancho de Hunter S. Thompson

Ex-assistente do escritor no fim da vida dele, a fotógrafa Chloe Sells transformou o Owl Farm em imagens marmorizadas com técnica japonesa. O livro Hot Damn! é sobre criação, excesso e controle (ou a falta dele).

/ 5 MIN DE LEITURA

Aos 11 da noite, o café da manhã. Chloe Sells preparava para Hunter S. Thompson o que ele pedia: Bloody Marys de manteiga de amendoim e a administração de uma farmácia inteira, entre remédios e recreativos. Era o trabalho: ela foi assistente pessoal do escritor nos últimos anos da vida dele, até a morte em 2005. Duas décadas depois, virou livro e exposição. A High Times conversou com ela.

Nascida e criada em Aspen, numa comunidade psicodélica onde o pai vendia pôsteres de arte gráfica dos anos 1960 e 70, Sells chegou ao rancho sem deslumbramento: seus pais já conheciam Thompson. “Ele treinou a si mesmo pra estar chapado e ser competente. Isso era importante pra ele”, diz. Cocaína, remédios, cannabis e álcool o dia inteiro, e mesmo assim raramente parecia “completamente destruído”.

Hot Damn!

O projeto virou o livro Hot Damn! e a mostra Drugs Before Dinner, Death Before Dishonour. Sells fotografou o Owl Farm, a propriedade de Thompson em Woody Creek, e tratou as imagens com suminagashi (a marmorização japonesa de tinta na água) pra criar o efeito psicodélico. O resultado costura paisagens das montanhas onde ela nasceu, crânios de felino, folhagem morta e texto fraturado (“Rage, Rage Against the coming of the Light”): íntimo e alucinado ao mesmo tempo.

Durante o serviço, ela mesma ficava sóbria. O trabalho “exigia um nível tão alto de intelecto e competência” que estado alterado não cabia. Só lembra de uma vez tomando tintura de cogumelo ou San Pedro com Thompson e a mulher dele, Anita.

Uma crítica ao excesso de potência

O mais afiado da entrevista não é a nostalgia, é a provocação. Sells desconfia da corrida da cannabis contemporânea pela potência máxima: pra ela, isso empurra pra inconsciência, não pra expansão. “As pessoas se afastaram dos psicodélicos porque querem aniquilar a própria experiência.” Defende a “erva comunitária” contra o consumo solitário e jura pelo poder transformador do LSD, que não usa há uns 12, 15 anos, desde que perdeu o estoque quando a câmera foi roubada em Botsuana.

A posição dela é clara: psicodélico como ferramenta de consciência, não como fuga. “Tome ácido em vez de rolar o feed. Isso é controle, na comparação.”

Beleza como pausa

No fim, o tema não é droga, é criação, e a ilusão de controle. “Você acha que tem controle? Isso é uma farsa. Você não tem controle nenhum”, diz. E emenda uma defesa da arte que soa quase política: “A beleza tem um recurso político. Ainda mais agora, quando as pessoas estão ansiosas ou com medo, a beleza cria uma pausa.”

A entrevista saiu na edição impressa de primavera/verão de 2026 da revista.

Entrevista original de High Times.